A
chegada de Lula à presidência da república e os seus oito anos de mandato
compõem um cenário político ainda pouco dimensionado. Com ele, pela primeira
vez um partido nascido na esquerda alcançaria o poder e teria condições
efetivas de impor sua agenda política. Rejeitado pelos mais pobres, Lula chega
ao poder com o voto das classes médias que acreditavam na bandeira da ética na
política e por aqueles que imaginavam transformações profundas na sociedade e
sai dele como o político mais popular da história do país, conseguindo eleger
sua sucessora e deixar o seu partido no topo da coalizão que governa o país.
Ocorre que no meio desse caminho o ex-presidente desconstrói toda a herança que
a esquerda conseguira construir em várias décadas, o líder se tornou maior que
o PT e o engoliu, abandonou e foi abandonado pelas classes médias
intelectualizadas, esqueceu muitas das bandeiras da esquerda e a luta de
classes, se tornou populista e abraçou ao mesmo tempo as elites e os
descamisados. Através de um não declarado pacto de cumplicidade, Lula cooptou e
esvaziou os sindicatos e os movimentos sociais tornando-os frágeis e omissos
diante do governo; ao mesmo tempo ocupou um espaço até então ocupado por velhos
políticos da direita conservadora. Esses são apenas alguns dos aspectos da
história recente do país que analisados pelo cientista político André Singer no
seu recém lançado Os sentidos do lulismo; reforma gradual e pacto conservador. Singer,
que foi porta voz de Lula em seu primeiro mandato tem a vantagem de quem pôde
observar o governo por dentro e o distanciamento do intelectual que busca o
rigor dos fatos, desenvolve as ideias fundamentais publicadas em 2009 na
revista Novos Estudos do Cebrap e abre um importante caminho para a análise de
um fenômeno novo e extremamente importante da política brasileira, o tal
lulismo, que representa um realinhamento na ordem política brasileira,
reordenando as relações entre as massas e os blocos políticos, entre as classes
sociais, os partidos e o governo. O livro já pode ser pensado como um marco na
ciência política brasileira, não por marcar um novo campo mas por inaugurar uma
perspectiva de análise que a partir de agora não poderá ser ignorada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.