“A política é a guerra sem derramamento de sangue, enquanto a guerra é a política com derramamento de sangue.” Mao Tsé Tung

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Os sentidos do lulismo


A chegada de Lula à presidência da república e os seus oito anos de mandato compõem um cenário político ainda pouco dimensionado. Com ele, pela primeira vez um partido nascido na esquerda alcançaria o poder e teria condições efetivas de impor sua agenda política. Rejeitado pelos mais pobres, Lula chega ao poder com o voto das classes médias que acreditavam na bandeira da ética na política e por aqueles que imaginavam transformações profundas na sociedade e sai dele como o político mais popular da história do país, conseguindo eleger sua sucessora e deixar o seu partido no topo da coalizão que governa o país. Ocorre que no meio desse caminho o ex-presidente desconstrói toda a herança que a esquerda conseguira construir em várias décadas, o líder se tornou maior que o PT e o engoliu, abandonou e foi abandonado pelas classes médias intelectualizadas, esqueceu muitas das bandeiras da esquerda e a luta de classes, se tornou populista e abraçou ao mesmo tempo as elites e os descamisados. Através de um não declarado pacto de cumplicidade, Lula cooptou e esvaziou os sindicatos e os movimentos sociais tornando-os frágeis e omissos diante do governo; ao mesmo tempo ocupou um espaço até então ocupado por velhos políticos da direita conservadora. Esses são apenas alguns dos aspectos da história recente do país que analisados pelo cientista político André Singer no seu recém lançado Os sentidos do lulismo; reforma gradual e pacto conservadorSinger, que foi porta voz de Lula em seu primeiro mandato tem a vantagem de quem pôde observar o governo por dentro e o distanciamento do intelectual que busca o rigor dos fatos, desenvolve as ideias fundamentais publicadas em 2009 na revista Novos Estudos do Cebrap e abre um importante caminho para a análise de um fenômeno novo e extremamente importante da política brasileira, o tal lulismo, que representa um realinhamento na ordem política brasileira, reordenando as relações entre as massas e os blocos políticos, entre as classes sociais, os partidos e o governo. O livro já pode ser pensado como um marco na ciência política brasileira, não por marcar um novo campo mas por inaugurar uma perspectiva de análise que a partir de agora não poderá ser ignorada.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.